Folhapress | 8 de outubro de 2018 - 09h02

Bolsonaro e Haddad se enfrentarão no segundo turno

Ciro Gomes ficou em terceiro lugar, seguido por Geraldo Alckmin

O deputado fluminense Jair Bolsonaro (PSL) e o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad (PT) se enfrentarão no segundo turno da eleição para presidente, no próximo dia 28, projeta Datafolha.A onda de apoios que impulsionou Bolsonaro, 63, na última semana antes do primeiro turno espraiou-se, mas não foi suficiente para finalizar o jogo neste domingo (7). Ele tem 47,35% dos votos válidos, com 87,91% das urnas apuradas. Uma série de candidatos associados a seu nome nos estados teve desempenho superior ao que as pesquisas indicavam.

Já Haddad, 55, amealhou até agora 27,55% dos votos válidos, conquistando endosso significativo na região Nordeste, berço do homem que o colocou na corrida, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Será o sexto segundo turno em oito eleições presidenciais desde a redemocratização de 1985.

Se de 1994 a 2014 o que estava em jogo era avalizar ou rejeitar a gestão anterior, agora tanto Bolsonaro como Haddad são opositores ferrenhos da agônica e impopular Presidência de Michel Temer (MDB). O segundo turno, porém, vai se dar entre os dois candidatos de maior rejeição pelo eleitorado.

O deputado conseguiu associar-se à figura da novidade na política, mesmo sendo congressista desde 1991, e ganhou para si o rótulo de combatente principal contra o PT. Promete "quebrar o sistema", sem dizer exatamente como o fará, apoiando-se na rejeição da política tradicional -algo que vai além de Lula, mas o inclui.

Já o ex-prefeito apresenta-se como um redentor de políticas de seu partido durante a era Lula, buscando esquivar-se do desastre econômico legado por Dilma Rousseff (PT), impedida e substituída por seu vice, Temer, em 2016.

Essa particularidade explica o fiasco experimentado pelo PSDB nessa eleição. O partido apoiou o impeachment e aliou-se a Temer até o ano passado, mesmo contra a vontade de seu candidato, o ex-governador paulista Geraldo Alckmin.

De porta-estandarte do combate à corrupção protagonizada pelo PT, simbolizado pela Operação Lava Jato, a sigla viu o seu quase vencedor de 2014, Aécio Neves, ser envolvido em investigações policiais.

O papel de bastião do antipetismo foi conquistado por Bolsonaro. Com tudo isso, Alckmin teve o pior desempenho da história do partido em eleições presidenciais, com 4,94% dos válidos até agora.

O ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT) provou resiliência ao longo da corrida, mas a prevalência do PT e de Bolsonaro no seu reduto, o Nordeste, limitaram sua capacidade de ultrapassar Haddad como nome da esquerda -apesar de simulações de segundo turno o colocarem em posição mais confortável que a do petista. Tem 12,46% dos válidos até agora.

O voto mudancista vencedor neste domingo já foi representado em algum momento por Marina Silva, mas a candidata da Rede teve sua pior derrota nos três pleitos que disputou: mero 1% dos válidos. Foi ultrapassada por um neófito, João Amoêdo (Novo), com 2,68%, e por Cabo Daciolo, com 1,22%.

Henrique Meirelles (MDB), badalado ex-ministro da Fazenda, não teve como tirar a bola de chumbo representada por Temer de seu pé e amargou um sexto lugar, com 1,22%. Alvaro Dias (Podemos), que fez da defesa da Lava Jato sua bandeira, conquistou somente 0,86%.

O círculo eleitoral brasileiro, de certa forma, traz o país de novo a 1989. Lula, inelegível por ter sido condenado em segunda instância por corrupção, lançou Haddad como seu preposto após esticar até onde pôde a corda de sua candidatura na Justiça.

Se Haddad é um ator tradicional, apesar de ter sido um prefeito mal avaliado e derrotado em primeiro turno em 2016, Bolsonaro representa o surpreendente nessa campanha.

Ele coleciona polêmicas que lhe valem as pechas de fascista e radical, sendo réu por incitação ao estupro e um apologista da ditadura militar (1964-85). Seu ídolo político é o único torturador do período reconhecido assim pela Justiça, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015.

Nada disso impediu que sua campanha baseada em uso intensivo de redes sociais e grupos de mensagens instantâneas, a partir de 2015, o tornasse impenetrável a críticas dos apoiadores. Sem estrutura partidária ou tempo significativo de propaganda gratuita, virou fenômeno.

Cercou-se de colaboradores oriundos do Exército e de setores conservadores e admite sua ignorância sobre assuntos econômicos. Para tanto, escalou um economista ultraliberal, Paulo Guedes, para ser seu fiador junto aos mercados –mesmo com desconfianças, foi bem-sucedido dada a alergia que o mundo financeiro tem do PT.

Por fim, ou talvez para começar, houve o atentado de 6 de setembro. Ferido gravemente por uma facada no abdômen, Bolsonaro deixou fisicamente a campanha até o fim. Isso desorganizou a estratégia dos adversários de atacá-lo, embora seja incerto se isso se reverteria em apoio a nomes como Alckmin.

Bolsonaro só foi visto em parcas entrevistas e vídeos gravados para a internet, evitando a exposição ao contraditório em debates –só participou de dois.

Agora, terá tempo de exposição igual na propaganda gratuita e deverá enfrentar embates diretos com Haddad. A sabedoria convencional diria que será o tira-teima para a estratégia inusual de Bolsonaro, mas ela não foi boa conselheira até aqui neste 2018. Com informações da Folhapress.

 
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